vai para onde o metro nĂŁo engole contabilistas como relĂłgios enferrujados
e as criadinhas não precisam de luz a jorrar da cabeça para colher flores

vai e senta-te ao sol
repousa os dedos inseguros que tapam os olhos ocos de luz de criadinhas e contabilistas
para onde te leva essa luz que nĂŁo cessa de nascer
para os metros que morrem e nunca voltam
permanecem solenemente nas vértebras que seguram dedos inquietos
de que te serve morrer nascer jorrar luz, tomar criadinhas, engolir contabilistas?
Ă© certo que seria delicioso morder com luxĂșria a nudez de quem se perde no metro numa noite escura
inundar de cafĂ© e mĂșsica os lĂ­rios cortados da criadinha
é certo que seria delicioso abraçar o ir e vir o nascer e o morrer
afundar-me no escuro metro com uma criadinha a jorrar lĂ­rios cortados de cafĂ© e mĂșsica
trocar os dedos por lĂ­nguas sedentas de bocas

Sou de poucas letras. Quando escrevo duas linhas jĂĄ faço uma festa. Houve um Ășnico dia, jĂĄ lĂĄ vĂŁo dez anos, em que sentei ao computador e escrevi uma pĂĄgina de alto a baixo, sem parar nem hesitar.

Lembro-me perfeitamente como se fosse ontem. Parecia maluco a matraquear nas teclas. Guardei aquilo tal e qual como me saiu, sem alterar uma vĂ­rgula.

Hoje calhou ir desenterrar coisas passadas, e redescobri este pedaço. Soube-me bem relĂȘ-lo. E quanto mais nĂŁo seja por causa disso, vale a pena guardar a tinta no bolso.