vai
vai para onde o metro nĂŁo engole contabilistas como relĂłgios enferrujados
e as criadinhas não precisam de luz a jorrar da cabeça para colher flores
vai e senta-te ao sol
repousa os dedos inseguros que tapam os olhos ocos de luz de criadinhas e contabilistas
para onde te leva essa luz que nĂŁo cessa de nascer
para os metros que morrem e nunca voltam
permanecem solenemente nas vértebras que seguram dedos inquietos
de que te serve morrer nascer jorrar luz, tomar criadinhas, engolir contabilistas?
Ă© certo que seria delicioso morder com luxĂșria a nudez de quem se perde no metro numa noite escura
inundar de cafĂ© e mĂșsica os lĂrios cortados da criadinha
é certo que seria delicioso abraçar o ir e vir o nascer e o morrer
afundar-me no escuro metro com uma criadinha a jorrar lĂrios cortados de cafĂ© e mĂșsica
trocar os dedos por lĂnguas sedentas de bocas

Sou de poucas letras. Quando escrevo duas linhas jĂĄ faço uma festa. Houve um Ășnico dia, jĂĄ lĂĄ vĂŁo dez anos, em que sentei ao computador e escrevi uma pĂĄgina de alto a baixo, sem parar nem hesitar.
Lembro-me perfeitamente como se fosse ontem. Parecia maluco a matraquear nas teclas. Guardei aquilo tal e qual como me saiu, sem alterar uma vĂrgula.
Hoje calhou ir desenterrar coisas passadas, e redescobri este pedaço. Soube-me bem relĂȘ-lo. E quanto mais nĂŁo seja por causa disso, vale a pena guardar a tinta no bolso.
ComentĂĄrios (6)
Isabel Pires 2015-11-16 14:56
luis0rodrigues 2015-11-16 16:20
Isabel Pires 2015-11-16 18:24
luis0rodrigues 2015-11-16 21:13
deep 2015-11-21 15:02
luis0rodrigues 2015-11-23 10:22
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