Tinta no bolso
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27 de setembro de 2018 ·  

Comentários (5)

Isabel Pires 2018-09-27 21:43

Pensei no Outono que começou há pouco. (No calendário, não na temperatura.) E lembrei-me deste poema: Carta de Outono Pensarás que não te escrevi antes porque o Verão consome a energia da alma com um apetite solar; e porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia do espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso nas traseiras do invisível, onde um deus culpado se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar; agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde, gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas verdes como as folhas perenes do norte. Então, ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto; e os teus dedos tenham perdido a força antiga que desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos perdendo-me do silêncio na insistência dos passos. O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros; o teu amor gastou-se com um breve brilho de isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de Outubro e Novembro, arrastando o Outono com os pés, nas planícies provisórias de um esquecimento de estações. Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", págs. 50 e 51 | Quetzal Editores, 1988

Isabel Pires 2018-09-28 12:09

Mas apesar da foto (me) fazer lembrar o Outono, o tempo está de Verão e agora calhou a passar outra vez a vista por este poema: O Verão é assim O Verão é assim: a masculina e mineral e quase táctil vibração das cigarras. Não sou apenas eu, também elas se alimentam de claridade, fogem do escuro. Porque o escuro é onde se abrigam a calúnia e a usura, o escuro é onde a vaidade e a demência do lucro acorrem ao apelo do mais rasteiro. O céu não passa de um imenso e vazio buraco negro, mas tenho a esperança que o inferno conserve ainda activas as fogueiras da inquisição, e nas suas chamas possam ouvir-se um dia esses cães, que tanto abusam do poder, rechinar – como as cigarras no verão. Eugénio de Andrade | in: Sal da Língua,1995

Luis 2018-10-06 10:55

Outono, qual outono? Vamos ter Natal à Brasileira, ó yeah!

Maria Papoila 2018-09-29 23:06

10

Luis 2018-10-06 10:56

27! Normalmente percebo pouco. A excepção feita quando não percebo nada como agora :)

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