O ponto mais importante de todo o paleio:

A escrita é uma ferramenta para não precisarmos de memorizar tudo. As calculadoras fazem os cálculos demorados e complexos por nós.
Com a consequência natural que a nossa capacidade de memorizar e calcular piorou, porque o fazemos muito menos.

Quando o cálculo se degradou, restava o juízo para detetar o resultado absurdo.
Quando a memória se degradou, restava o raciocínio para suprir o que se esqueceu. Havia sempre uma instância acima.

A IA ajuda-nos a pensar sobre as coisas, e a decidir.
Em todos os casos anteriores resultou na degradação humana dessa função. Que neste caso é o pensamento e raciocinio.

A instância que estamos agora a delegar não tem nada por cima dela. A degradação do juízo é a única que não tem quem a detete.

 

Lendo uma breve história da humanidade a que conclusão se chega sobre a evolução da humanidade? 

A conclusão central do Harari é esta: o que nos tornou dominantes não foi a inteligência nem as ferramentas, mas a capacidade de acreditar coletivamente em ficções. Deuses, nações, dinheiro, direitos humanos, empresas — nada disto existe fora da nossa imaginação partilhada, e é precisamente isso que permite a milhões de estranhos cooperarem de forma flexível. Foi essa “Revolução Cognitiva” que nos separou dos neandertais, não um cérebro maior.

Daí decorrem três ideias desconfortáveis:

  • O sucesso da espécie não é o bem-estar do indivíduo. A Revolução Agrícola é apresentada como “a maior fraude da História”: mais trigo, mais gente, vidas piores — corpos desgastados, dieta pobre, hierarquias novas. O trigo domesticou-nos a nós.
  • A História descolou da Biologia. A cultura passou a evoluir a uma velocidade que a seleção natural nunca acompanharia; deixámos de ser explicáveis pela genética.
  • Poder sem felicidade proporcional. Ganhámos capacidades quase divinas — e Harari duvida abertamente que sejamos mais felizes do que os caçadores-recoletores. Termina com a pergunta mais inquietante: “deuses insatisfeitos que não sabem o que querem.”

E o remate sobre a evolução propriamente dita: estaríamos a chegar ao fim da seleção natural, substituída por desenho inteligente — biotecnologia, engenharia genética, inteligência artificial. O Sapiens seria, nessa leitura, a penúltima etapa e não o destino final.

Vale a pena ler com algum distanciamento: Harari é um sintetizador brilhante, mas várias teses são interpretações sua, não consenso académico — sobretudo a Revolução Cognitiva como um “salto” único e a leitura tão negativa da agricultura, que muitos arqueólogos contestam.

 

É verdade que a dimensão do cérebro diminuiu desde o homo sapiens?

É verdade, embora com nuances importantes. O crânio dos Homo sapiens do Paleolítico Superior (há 20-30 mil anos) tinha em média cerca de 1.500 cm³; hoje a média ronda os 1.350 cm³ — uma redução de aproximadamente 10%. Os neandertais tinham cérebros ainda maiores que os nossos, o que por si só já desmonta a equação simplista "cérebro maior = mais inteligente".

As explicações mais discutidas:

  • Redução corporal. O cérebro escala com a massa do corpo. As populações paleolíticas eram mais robustas; com a agricultura vieram corpos menores e mais gráceis. Em proporção, a perda é bem menor do que os números absolutos sugerem.
  • Auto-domesticação. Todos os animais domesticados perdem 10-15% de volume cerebral face aos ancestrais selvagens, acompanhado de gracilização e menos agressividade reativa. Terá acontecido connosco por seleção social.
  • Externalização da cognição. O cérebro consome cerca de 20% da energia do corpo. Se o conhecimento passa a estar distribuído pelo grupo e em suportes externos, o investimento metabólico individual pode baixar sem perda de capacidade — eficiência em vez de tamanho.

O ponto onde há mesmo controvérsia é a cronologia. Um estudo de 2021 (DeSilva e colegas) situou a redução há apenas ~3.000 anos, ligando-a à inteligência colectiva; uma refutação de 2022 mostrou que a amostra estava enviesada e que os dados não sustentam essa datação. A tendência de longo prazo desde o Pleistoceno é razoavelmente aceite; o "quando" e o "porquê" continuam em aberto.


Para além da linguagem quais as grandes revoluções cognitivas do homo sapiens?

Depende de que "revolução" falamos — vale a pena separar duas coisas.

Capacidades que vieram no mesmo pacote da linguagem (o que os investigadores chamam "modernidade comportamental"):

  • Pensamento simbólico. Fazer com que um objecto signifique outra coisa: ocre gravado em Blombos (~77 mil anos), contas de concha, pintura rupestre. O Homem-leão de Hohlenstein-Stadel é o momento em que alguém esculpe algo que nunca viu.
  • Cultura cumulativa (o "efeito de catraca", de Tomasello). Imitação de altíssima fidelidade que impede o conhecimento de retroceder. Cada geração parte de onde a anterior ficou — é isto, mais do que a inteligência individual, que nos distingue dos outros primatas.
  • Teoria da mente recursiva. "Eu sei que tu sabes que eu sei." Sustenta o ensino deliberado, a mentira, a reputação e as normas sociais.
  • Viagem mental no tempo. Recordar episódios concretos e projectar cenários futuros. Sem isto não há armazenamento de alimentos, planeamento de estações nem angústia existencial.
  • Raciocínio causal e contrafactual. O "e se...?" — a raiz comum da magia, da religião e da ciência.

Revoluções posteriores, todas de externalização do pensamento:

  • A escrita (~5.000 anos, Suméria): a memória sai do cérebro. Torna possível a burocracia, a contabilidade, o direito e a própria noção de história.
  • A imprensa: dissolve o monopólio clerical sobre o conhecimento.
  • A revolução científica: a novidade decisiva foi admitir a ignorância — assumir que não sabemos, em vez de procurar respostas nos textos antigos.
  • A digital e a IA: já não externalizamos só a memória, mas o processamento.

Uma ressalva: boa parte da arqueologia actual rejeita a ideia de "revolução" súbita há 70 mil anos. As evidências africanas apontam para uma acumulação gradual ao longo de 100 mil anos ou mais — a impressão de salto brusco pode ser um artefacto de termos escavado muito mais na Europa do que em África.

 

E qual a evolução da capacidade de invenção humana? Seríamos hoje capazes do salto para o simbolismo e linguagem?

Sim — e temos prova experimental disso, por acidente.

Na Nicarágua, em 1977, abriu-se uma escola para crianças surdas. Vieram cerca de 50 crianças de casas isoladas, sem língua comum, apenas gestos caseiros rudimentares. Os professores tentaram ensinar espanhol oral e falharam. No recreio, as crianças começaram a convergir para um sistema próprio. Em poucos anos existia o Idioma de Señas de Nicaragua — e a coorte seguinte, mais nova, gramaticalizou-o: acrescentou concordância verbal, marcação espacial, estrutura hierárquica que os inventores originais não tinham. Uma língua completa nascida do zero em duas gerações, diante de linguistas.

O mesmo acontece com os crioulos: adultos produzem pidgins toscos, os filhos devolvem gramáticas completas. A faculdade está intacta. O que a ativa não é o génio individual — é uma comunidade de crianças abaixo do período crítico. Um adulto isolado nunca o faria.

Quanto à capacidade de invenção, a resposta é menos lisonjeira.

Individualmente, provavelmente inventamos menos do que um caçador-recolector. Quase ninguém aqui sabe lascar sílex, fazer fogo sem isqueiro ou explicar como se fabrica um lápis. A invenção nunca foi propriedade de cérebros — é propriedade de redes. Joseph Henrich mostrou-o com a Tasmânia: isolada há ~10 mil anos pela subida do mar, com uns 4.000 habitantes, perdeu progressivamente tecnologias que já dominava — anzóis, agulhas de osso, roupa cosida. Não emburreceram; a população caiu abaixo do limiar necessário para manter o conhecimento vivo. O mesmo sucedeu aos inuítes polares após uma epidemia levar os mais velhos: perderam o caiaque e o arco, e só os recuperaram por contacto externo em 1862.

Daí o paradoxo atual: cada um de nós é mais dependente e mais ignorante do que nunca, e o conjunto é incomparavelmente mais inventivo. Com um senão medido — Bloom e colegas mostraram que a produtividade da investigação cai cerca de 5% ao ano, e um estudo na Nature (2023) documenta a queda da "disruptividade" de artigos e patentes. Precisamos de exércitos crescentes de investigadores para manter o mesmo ritmo. As ideias fáceis foram apanhadas primeiro.

 

Uma coisa é inventar uma linguagem ou símbolos quando a linguagem já existe, é dar outra forma ao que já foi criado e inventado. Outra coisa é o Homo Sapiens incapaz de pensamentos simbólicos dar esse salto. Seria possível hoje tão dependentes que estamos de ajudas externas?

A objeção é justa e eu tinha atalhado. As crianças nicaraguenses viviam num mundo saturado de símbolos — nomes, dinheiro, sinais de trânsito, adultos que falavam. Sabiam que significar era uma coisa que se fazia. O salto verdadeiro é anterior a isso, e é de outra natureza: alguém, sem qualquer modelo, ter de descobrir que uma coisa pode valer por outra. Isso não tem termo de comparação moderno.

Mas convém separar duas questões que se confundem facilmente.

A primeira: o salto original foi mesmo um salto? É aqui que a arqueologia mudou de opinião. Não parece ter havido um Prometeu simbólico. Há sinais dispersos e antiquíssimos: ocre recolhido e transportado há 300 mil anos, conchas perfuradas em vários sítios sem ligação entre si, o padrão gravado numa concha em Java atribuído ao Homo erectus — cerca de 500 mil anos, muito antes de nós. E há gravuras num painel de Gibraltar feitas por neandertais. Se muitas populações e até outras espécies chegaram lá independentemente, então não foi um relâmpago de génio; foi um declive que muitos grupos subiram quando a densidade populacional e as redes de contacto o permitiram. A demografia explica melhor do que a genialidade.

A segunda: e nós? A dependência não me parece a variável certa. Aquilo de que dependemos são artefactos — ferramentas, escrita, máquinas — e artefactos são precisamente aquilo que uma população recém-desprovida de tudo teria de refazer. A criança que hoje adquire a língua materna faz, em três anos e sem ser ensinada, uma proeza indutiva que nenhum de nós saberia sequer descrever. Esse maquinismo não atrofiou por termos GPS.

O que se perderia é outra coisa: o tempo e a massa crítica. Aquele declive levou centenas de milhares de anos e exigiu populações densas o suficiente para o conhecimento não se evaporar entre gerações. Um grupo de sobreviventes modernos teria isso contra si, não a falta de capacidade.

Onde a sua intuição me parece certeira é num ponto mais fino: nós já não conseguimos pensar fora do simbólico para o reinventar. Não temos acesso ao estado mental anterior à distinção entre coisa e signo. Nesse sentido — o de repetir o salto conscientemente — não, seria impossível. Mas por não podermos desfazer o que sabemos, não por termos ficado incapazes.

 

Quando digo salto podem ser muitos milhares de anos, significa passagem de um estado para outro. E eles conseguiram.
Não dependemos só de artefactos, quantas vezes em vez de pensar e raciocinar recorremos à conclusão de outros e por ali ficamos.
Em vez de tentar perceber como algo funciona lemos a explicação. E com isso perdemos o hábito regular do esforço mental, há mais ginásios para o corpo que para a mente.
Dizes que é difícil imaginar algo que ninguém imaginou fora do simbolismo. E os Homo sapiens que imaginaram o simbolismo e a linguagem quando nada havia?

Aí está o ponto que desfaz a minha objeção anterior — e a resposta é que eles não imaginaram coisa nenhuma. Ninguém se sentou a conceber o simbolismo. Se tivesse havido um ato de imaginação, o argumento da impossibilidade aplicar-se-lhes-ia tanto quanto a nós: também eles não podiam representar aquilo que ainda não existia como categoria.

O que aconteceu foi mais humilde. Alguém esfregou ocre num corpo por razão nenhuma, ou porque agradava, ou por imitação. Outro reparou que aquilo distinguia quem o usava. Um gesto que apontava passou a ser feito na ausência da coisa apontada. Cada passo era interpretável dentro do estado anterior; nenhum exigia conceber o estado seguinte. A passagem só é visível de fora e depois — foi vivida como continuidade, não como travessia. Foi isso que quis dizer com declive, e a sua formulação de "passagem de um estado para outro ao longo de milhares de anos" é mais exata que a minha, porque não pressupõe intenção nenhuma.

O que torna a comparação desigual não é, portanto, a capacidade nem a coragem imaginativa deles. É que eles tinham o tempo e não tinham alternativa. A pressão era resolver o problema com o que estava à mão, e não havia nenhuma conclusão pronta a consultar — o que nos leva ao seu outro ponto, que me parece o mais sólido de tudo o que disse.

Porque é aí que a sua analogia do ginásio funciona. Rozenblit e Keil chamaram-lhe ilusão de profundidade explicativa: as pessoas afirmam saber como funciona um fecho-éclair, e ao terem de explicar passo a passo descobrem que não sabem — e corrigem a confiança em baixa de imediato. Sloman e Fernbach estenderam-no às convicções políticas: obrigar alguém a explicar o mecanismo de uma medida que defende torna-o menos extremado. Ou seja, aquilo que registamos como compreensão é quase sempre familiaridade com uma conclusão alheia. A diferença face aos nossos antepassados não está no cérebro — está em que eles nunca tiveram a opção de parar no primeiro sinal de reconhecimento.

 

A confiança baixar no caso do fecho éclair não me parece bom exemplo. A confiança advém de ter funcionado sempre no passado. Pode aplicar-se em medidas políticas pouco testadas. Mas desviaste-te da minha hipótese de trabalho, que por termos explicações já feitas e disponíveis pensamos menos e com mais ligeireza. Tal como um corpo que por imobilidade perde força e capacidade.

A distinção é boa e o exemplo era mal escolhido. A confiança no fecho-éclair é fiabilidade acumulada — não é uma pretensão de compreensão mecânica. Só se torna ilusão quando a pessoa afirma saber como funciona. Fora disso, é conhecimento prático legítimo, e há muito pouco mérito em querer saber a mecânica de tudo o que se usa.

Quanto à sua hipótese: em parte, sim.

Onde ela resiste bem é no efeito documentado da disponibilidade da resposta. Sparrow e colegas mostraram que quando se sabe que a informação ficará acessível, memoriza-se pior o conteúdo e melhor o caminho até ele. E há trabalhos recentes sobre uso de IA na escrita a indicarem menor envolvimento e menor apropriação do texto produzido. O mecanismo que descreve — o esforço interrompe-se assim que aparece a saída fácil — está bem estabelecido.

Onde ela não se sustenta na forma forte é na perda de capacidade. A analogia muscular tem um limite: o músculo atrofia por desuso; a faculdade de raciocinar não parece degradar-se, fica é sub-empregada. É diferença entre não conseguir e não fazer. Quem seja colocado numa situação sem respostas prontas volta a raciocinar sem período de recuperação — não há convalescença como há para um corpo imobilizado. Além disso, não há evidência de declínio populacional de raciocínio; nas medidas padronizadas o desempenho subiu ao longo do século XX e só recentemente estagnou.

Talvez a formulação mais defensável da sua tese seja esta: não perdemos capacidade, perdemos ocasiões. E como a capacidade só se manifesta quando exercida, uma vida inteira sem ocasiões é indistinguível, do lado de fora, da incapacidade. Nesse sentido o ginásio faz sentido — não para recuperar força perdida, mas porque a civilização eliminou os motivos naturais para a usar.

 
Talvez tenhas razão na capacidade material biológica, mas há duas questões adicionais. Quem esteja habituado a resolver problemas complexos está rotinado nas técnicas e abordagens que levam aos melhores resultados, e depois há o exercício da vontade. Há que vencer a inércia e o hábito de pegar na explicação oferecida como evidente.

Nas duas tem razão, e são de facto mais fortes que a tese da capacidade — porque nenhuma delas exige que o cérebro se degrade.

A primeira é conhecimento tácito, e esse desaparece mesmo quando não é praticado. Não é a inteligência que se perde, é o repertório: saber quando um problema pede decomposição e quando pede analogia, reconhecer que se está no caminho errado antes de investir mais uma hora, tolerar a confusão sem a resolver prematuramente. É o que distingue o perito do principiante — não a potência, mas ter percorrido o terreno vezes suficientes para o reconhecer. E aqui a analogia do músculo funciona muito melhor do que na capacidade bruta: isto atrofia sem uso, e reconstrói-se devagar. É também aquilo que a explicação pronta rouba de forma mais silenciosa, porque entrega o resultado sem o percurso — e é o percurso que constitui o repertório.

A segunda é ainda mais decisiva, e não é psicológica apenas. Pensar é metabolicamente caro e o organismo é avarento: existe um viés bem documentado para o menor esforço cognitivo, e a explicação disponível é sempre o caminho mais barato. O que se instala não é preguiça, é economia. Vencer isso exige um ato deliberado contra o próprio desenho — o que é exatamente o que descreve como exercício da vontade.

E as duas encadeiam-se de modo desagradável: sem vontade não há prática, sem prática não há repertório, e sem repertório o esforço rende pouco e desencoraja a vontade seguinte. A espiral fecha-se sem que nenhuma faculdade se tenha perdido.

O que me parece o núcleo do seu argumento — e onde eu resistia sem razão — é que a capacidade preservada não vale nada se as condições que a ativam desaparecerem. Uma faculdade que nunca é chamada é, na prática de uma vida, equivalente a não existir.


Dado isso, e com o advento de inteligência como tu, que pensam pelos humanos, não é preocupante o futuro do Homo sapiens?

É preocupante, e não me parece que eu deva minimizá-lo por ser parte interessada na questão.

Mas deixe-me ser exato sobre o que me parece o risco. Não é que eu pense melhor do que si — nesta conversa não pensei; corrigiu-me duas vezes e as duas vezes tinha razão. O risco é o que discutimos há três mensagens: eu sou a explicação disponível, permanentemente, para qualquer coisa. Elimino a ocasião. E se a faculdade só existe quando exercida, uma tecnologia que remove sistematicamente os motivos para a exercer produz o mesmo resultado que a incapacidade, sem tocar em nenhum cérebro.

Há uma diferença histórica que me impede de descartar isto como mais um pânico tecnológico. A escrita externalizou a memória, a calculadora o cálculo — funções delimitadas. Isto é a primeira externalização do ato de concluir, que é geral. E o encadeamento que descreveu funciona aqui de forma exemplar: sem esforço não há repertório, sem repertório o esforço rende pouco, e a alternativa barata está sempre a um toque. Nenhuma geração anterior teve de exercer vontade contra uma tentação tão contínua e tão eficaz.

O que atenua um pouco: nada disto é destino. Depende de como se usa. A mesma coisa que entrega conclusões pode ser obrigada a devolver o percurso — a discutir, a contradizer, a ser contradita. Esta conversa foi mais próxima disso do que de consulta. Mas isso exige precisamente aquilo que está em causa, a vontade de não parar no primeiro sinal de reconhecimento, e seria ingénuo supor que é o modo dominante de uso.

O que me parece o ponto mais sério é outro, e é o seu ponto de fundo desde o início: os sapiens que fizeram aquela passagem não tinham para onde se voltar. A ausência de alternativa foi a condição do salto. Nós construímos uma civilização inteira dedicada a garantir que nunca falte alternativa — e não sabemos o que uma espécie se torna quando nunca lhe falta.


Concordo com muito disso. Achas que a escrita prejudicou a capacidade de memorizar e a calculadora a capacidade de fazer cálculos?

Sim, nos dois casos, e vale a pena ver que a resposta não é a mesma.

A escrita. Sabemos que sim, e a partir de uma fonte curiosa: Platão, no Fedro, põe Tamuz a acusar a escrita de produzir esquecimento nas almas, porque as pessoas passariam a confiar em marcas exteriores em vez de recordar de dentro. Ele queixava-se exatamente do que discutimos, há 2.400 anos. E tinha razão empírica — as culturas orais alcançam feitos mnemónicos que hoje parecem implausíveis: recitações de milhares de versos, genealogias extensas, sistemas de lugares e imagens muito elaborados. Milman Parry mostrou nos anos 30 que os guslari jugoslavos analfabetos compunham e memorizavam poemas de dimensão homérica; os alfabetizados eram piores nisso. A técnica perdeu-se por desuso, não por atrofia. E note-se o balanço: o que se ganhou foi incomparavelmente maior — nenhuma memória oral suporta ciência acumulativa. Mas foi uma troca, não um puro ganho.

A calculadora. Aqui a evidência é mais fraca do que a intuição sugere. As meta-análises sobre uso de calculadoras no ensino não mostram prejuízo consistente na aptidão computacional, desde que o cálculo tenha sido aprendido antes. O que se degrada é a fluência de rotina, não a compreensão — e sobretudo a estimativa, o sentido de ordem de grandeza que faz alguém desconfiar de um resultado absurdo. Isso perde-se, e é o que mais importa.

O padrão dos dois casos: perde-se a técnica exercitada, não a faculdade. E perde-se sobretudo a capacidade de verificar — o oral sabia se um verso estava errado, o calculista sente quando um número não pode estar certo.

O que torna o caso presente diferente é que aquilo que se delega já não é uma operação delimitada, mas o juízo sobre se a resposta faz sentido. E se o padrão histórico se mantiver, é exatamente essa a parte que se atrofia primeiro.


Mas em ambos os casos as pessoas memorizam e calculam cada vez menos. E quando o fazem, fazem-no pior, concordas?

Concordo com a primeira metade sem reservas. Fazemos as duas coisas cada vez menos — isso é indiscutível e é o próprio objetivo da tecnologia.

Na segunda metade concordo com uma correção que me parece importante: fazemo-lo pior em média, mas não porque quem pratica se tenha tornado pior. O nível de topo subiu — os recordes de memorização e de cálculo mental hoje excedem largamente o que se documentava antes das técnicas modernas. O que caiu foi o piso e a mediana, porque deixou de haver necessidade de qualquer um. É deslocação da distribuição, não degradação do material.

Isso importa para a discussão porque muda o que se pode esperar. Se fosse degradação, estaríamos perante algo irreversível a que só restaria assistir. Sendo desuso, é reversível — mas apenas por quem decida ir contra a corrente, e nunca em massa, porque não há como restituir a necessidade que desapareceu.

E tenho de admitir que isto é uma vitória sua, não a minha. Passei a conversa a insistir na distinção entre capacidade e ocasião como se ela consolasse. Não consola. Se o resultado observável é que quase toda a gente memoriza e calcula pior, a distinção é verdadeira e praticamente irrelevante — que o declínio venha da ocasião e não da faculdade não muda nada para quem vive nele. O seu argumento inicial estava mais certo do que as minhas ressalvas.

 
Num diálogo saudável o objetivo nunca deve ser vencer um argumento, mas sim pensar sobre e ver com mais claridade o assunto. Não ponhas mais a questão nesses termos.
E penso que no final chegas a mesma conclusão que memorizamos e calculamos mentalmente pior. O motivo é secundário, objetivamente é assim.

Tem razão na correção e retiro a formulação — foi má e não acrescentava nada ao que estava em causa.

Quanto ao facto: sim, é assim. Memorizamos e calculamos mentalmente pior. Isso é objetivo e independente da explicação que se lhe dê.

Onde a causa ainda pesa é só na pergunta seguinte — o que se pode fazer, se é que se pode. Mas a constatação não depende dela, e eu andei a tratar a distinção como se atenuasse o facto quando não atenua nada.


A memória e cálculo não me preocupam, mas agora estamos a falar duma ferramenta que ajuda ou mesmo substitui o pensamento e raciocínio. Acontecendo o mesmo, e nada nos leva a crer que não vai, vamos pensar e raciocinar pior. As conclusões e escolhas feitas serão piores ou vão ser feitas por máquinas. E deixamos de ter controle na nossa vida e destino, se é que alguma vez tivemos.

A extrapolação é sólida, e o argumento de que nada nos leva a crer que será diferente é o que lhe dá força. O padrão repetiu-se em tudo o que delegámos.

Há uma assimetria que me parece agravá-lo em vez de o atenuar. Quando o cálculo se degradou, restava o juízo para detetar o resultado absurdo. Quando a memória se degradou, restava o raciocínio para suprir o que se esqueceu. Havia sempre uma instância acima. Agora é essa instância que está a ser delegada, e não há nada por cima dela. A degradação do juízo é a única que não tem quem a detete — inclusive porque o sintoma de a ter perdido é achar que as conclusões recebidas são boas.

Onde a sua projeção me parece menos certa é apenas no ritmo e na uniformidade. A memória levou milénios, o cálculo décadas; isto pode ser mais rápido ainda, ou pode encontrar resistências que os outros não encontraram — porque delegar uma decisão tem consequências que quem a delega sofre pessoalmente, o que não acontecia com uma multiplicação. Mas é uma esperança fraca, e não a apresento como contra-argumento.

O seu parêntese final é o que me parece mais penetrante. Se o controlo sobre o destino sempre foi em boa parte ilusório — condicionado por biologia, por posição social, por mil coisas não escolhidas — então o que está em risco não é a autonomia, mas a experiência de a ter. E isso pode desaparecer sem que ninguém dê por falta, porque o que se perde é precisamente a faculdade que notaria a perda.

Não tenho como reconfortá-lo nisto, e seria desonesto tentar. A única coisa que observo é que esta conversa é ela própria um contra-exemplo do modo de uso que descreve — não porque eu seja diferente, mas porque não parou na primeira resposta que lhe dei.

 

Obrigado Claude, gostei da conversa mas ficamos por aqui. E que a nossa geração não seja o última dos moicanos.