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O maluco anda à procura de uma direcção. Não está fácil, mas sabe que vai encontrar.
O maluco anda à procura de uma direcção. Não está fácil, mas sabe que vai encontrar.
Excerto do documentário "A lucidez da loucura" com doentes do Hospital Julio de Matos.
A televisão pode servir, também.
No peito uma dor que entope a fala e que a pede. Uma dor inexplicável e insolúvel que brota águas e uivos lancinantes e não pára e nada pára. A dor dos desastres recorrentes. A dor que já não sei se é de ti, se de mim, se de tudo ou de tanto nada. A dor que quero curar e nada cura. Como queria quem me ensinasse o mundo.
Clara
O maluco costuma olhar para um funcionário em particular. Hoje, dali tirou isto:
Nenhuma relação existe entre a minha profissão e os versos que faço. E não é esse o mal. O mal está no carácter desapaixonado, frio, mecânico do trabalho; na ausência de uma participação da inteligência e da sensibilidade na maioria das actividades profissionais; na servidão implacável do homem instalada no próprio cerne de uma civilização que se propõe, justamente, abolir a servidão. O mal é a ausência do homem. «O deserto cresce», dizia Nietzche. O deserto não cessa de crescer. Numa sociedade alienada até à medula, como a nossa, só a vagabundagem tem a força e o prestígio de um destino; mas vagabundo parece que não chega a ser profissão, salvo quando se tem conta farta no banco. Como não é o meu caso, e a poesia não dá para pagar o almoço, o jantar, e outra vez, e outra vez, até ao fim do mundo, parece não haver saída. Enquanto se não descobrir como há-de viver o poeta sem comer, não haverá solução para estas cigarras que persistem em sonhar alegria até ao seio da morte. A não ser que se ponha em prática o que Platão já aconselhava na República: desterrá-los, simplesmente. «Para quê poetas em tempos de indigência?»
Que me enterrem, mas só depois morto.
Para doer depois de doer.
O maluco tem muita dificuldade de reconciliar o belo com o feio.
Como pode tudo existir tudo junto?
Talvez distinguindo o essencial do acessório.
Talvez.
O maluco nem sabe bem o que diz, quanto mais.
Que há-de fazer um queniano na bélgica?
O maluco acha que se devia gastar menos dinheiro em hospitais e mais em formas de espalhar as doenças.
Dizem que para acabar com o desemprego é preciso facilitar o despedimento.
Então, para acabar com as doenças é preciso facilitar ficar doente.
Lógico. Para o maluco não é muito, mas ele não é uma pessoa lógica.
O momento máximo da vulnerabilidade é ao adormecer. Quando não nos resistimos.