ao centro
tudo o ser humano tende para o equilíbrio
é esperar um pouco e equilibra-se

mas tão doce é o desequilíbrio
tudo o ser humano tende para o equilíbrio
é esperar um pouco e equilibra-se

Pressinto a coisa da música. Porque a música tem que ter uma coisa.
A música muda-me. Muda-me por dentro e por fora.
Não sei se a explicação é física, metafisica ou cataclísmica.
Vinha lançado para brincar ás teorias, mas assim que carreguei na primeira tecla, percebi. A música tem uma coisa.
É bonita e faz-me conhecer os deuses.
somos míopes porque somos breves
Queria escrever-te.
Sem floreados nem cores mágicas sem suspiros nem emoção.
Queria escrever-te.
Sem tinta só o que sinto sem qualquer pontuação.
Sabem quando se desliga um computador,
e só depois de desligado é que nos apercebemos do barulho que esteve a fazer o dia todo?
É isso.

Há uma categoria de autores, como o Jorge Palma, a que chamo os cantores do tu.
Cantam muito na segunda pessoa. Mas, claro que não é destinado a uma pessoa.
Se não sabe onde está a mãe ('Onde estás tu mamã'), a melhor maneira de saber não é gravar um disco na expectativa que ela talvez ouça passado um ano, e lhe responda.
Quando o Jorge Palma quer dizer algo a uma pessoa, chega ao pé dela e diz: Jaquim, tu assim e assim.
O tu escrito numa letra é para toda a gente e ninguém em particular.
Mas é da natureza humana juntar os pontos, fazer associações e até um coxo numa cadeira de rodas vai achar que "tu quando corres" é destinado a si, porque tem uma mente que corre. Desconfio que seja esse o truque dos cartomantes.
O tu tem algo de mágico, de ligação emocional. Quando o palma canta 'encosta-te a mim', fico com vontade de me ir encostar ao ombro. Eu e mais dois milhões de portugueses, vai ser um ombro concorrido :)
A coisa também funciona com o nós. 'A gente vai continuar/Enquanto houver estrada pra andar/Enquanto houver ventos e mar' é para mim, sou parte do nós, com ele estrada fora.
E agora a água tónica no gin, uma música do ele.
Gosto tanto tanto que em tempos fiz uma montagem, mesmo que não tenha ficado grande coisa.
Acabou-se a angústia dos seus passos em volta
Dum amor com que ele apenas sonhou
Pela primeira vez tinha o futuro nas mãos
Abriu a janela e voou
Nas tuas costas
desce a chuva
aos meus olhos molhados.
É pelos olhos que entra a água.

Adoro o sol. Ir no carro, sentir o calor no corpo e a música a tocar, nunca falha. Próxima paragem paraíso ou assim.
Adoro a noite. O melhor de mim é à noite e o melhor das cidades é a noite. Gosto de vaguear por Lisboa, quando já não há nada.
A noite é o beijo na língua. É o universo que sempre procurei. À noite somos todos animais.
A noite é o sonho e pesadelo dos que dormem. A noite pertence a quem não volta.

domingo à tarde conheci um homem
contou-me histórias de peixes e de mar
a beleza não chega a beleza nunca chega
