Afinal há sentido
Para quĂȘ os poetas em tempos de indigĂȘncia? Ă© uma pergunta com sentido

esta pergunta estĂĄ num livro chamado PĂŁo e Vinho, o que faz sentido

Para quĂȘ os poetas em tempos de indigĂȘncia? Ă© uma pergunta com sentido

esta pergunta estĂĄ num livro chamado PĂŁo e Vinho, o que faz sentido

E se o dia metesse fĂ©rias e durante um mĂȘs sĂł havia noite?
Acordar andar e trabalhar no escuro. NĂŁo se via nada, terĂamos que apalpar tudo e nada. Porreiro.
Um bébé com zero anos que nem consegue andar é muito giro, gera sorrisos e empatia, a malta brinca com ele e ri-se muito.
Um velho com cem anos que nĂŁo consegue andar, gera sentimentos muito variados, mas poucos sĂŁo sorrisos e empatia, e poucos querem brincar com ele.
Basta ver a carga que as palavras tĂȘm, um sapato velho nĂŁo presta e Ă© para deitar fora. NinguĂ©m chama bĂ©bĂ© a um sapato que acabamos de comprar.
Deviamos ter também nomes diferentes, um para os sapatos que jå não queremos e vamos deitar fora, outro para as pessoas que temos hå muito tempo.
Por todo o lado nos dizem com certeza onde estĂĄ o bem e onde estĂĄ o mal
HĂĄ a palavra certa
a politica certa
a atitude certa
o local certo
a roupa certa
a pessoa certa
os paises certos
e hĂĄ quem diga que a Ășnica maneira de estar certo
Ă© estar errado
as certezas prendem e enganam,
estĂĄ mais certo quem erra do que quem pensa melhor que os outros
só a interrogação é criadora
Em tempos escrevia em guardanapos e sacas de batatas
escrevia por uma esperança vaga
hoje Ă©-me difĂcil escrever numa terra sem papĂ©is e canetas
em redes sem rede, no mar alto em que nos afogamos
alegremente em conjunto
quando ia para o carro, tirei a t-shirt porque estava calor
pareceu-me natural
mas o natural sĂł Ă© natural em locais previamente aprovados (por quem?)
tirar a t-shirt num jogo de futebol Ă© normal
na rua nĂŁo Ă©
tirar a t-shirt num concerto de musica rock Ă© aceitĂĄvel
se for musica classica nĂŁo Ă©
gosto disto pelo motivos menos Ăłbvios, admiro quem faz o que nĂŁo se vĂȘ
quando era puto a malta que levava saco ou mochila para a praia, procurava que a mochila fosse gira e com estilo
havia um gajo que levava as coisas num saco do pĂŁo do acĂșcar, se fosse preciso com buracos
todo ele era desprendimento
mais tarde apercebi-me que nĂŁo era desapego, era pose. o saco do pĂŁo de acĂșcar era para ser visto
a preocupação pelo estilo era igual
neste video, para além do punho erguido
gosto de coisas como ele se desencontrar da prĂłpria sombra
Como tudo na vida, os restaurantes tambĂ©m tĂȘm um ponto de equilibrio
Ser o Ășnico resulta em que os empregados nĂŁo tĂȘm mais nada para fazer que olhar para mim
Ă© desconfortĂĄvel
O outro extremo Ă© estar tanta gente que para pedir a conta Ă© preciso pĂŽr-me nu em cima da mesa
estiveram aqui dois pombos enrolados, aquilo eram bicadas eram golpes de asa
foi intenso, mas fiquei sem saber se foi zanga ou amor
nĂŁo me atrevi a ir perguntar
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zĂŽo,
sorridente,
tal como agora estĂĄ
no retrato sobre a mesa.
Ela Ă© tĂŁo bela,
que, por certo, hĂŁo de ressuscitĂĄ-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassarĂĄ o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
EntĂŁo,
de todo amor nĂŁo terminado
seremos pagos
em inumerĂĄveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja sĂł porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja sĂł por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor nĂŁo seja mais escravo
de casamentos,
concupiscĂȘncia,
salĂĄrios.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vĂĄ pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
nĂŁo vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
â Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a famĂlia seja
o pai,
pelo menos o Universo,
a mĂŁe,
pelo menos a Terra.

Um dia, quem sabe
seremos pagos
em inumerĂĄveis noites de estrelas.
E que doravante
o pai seja pelo menos o Universo,
e a mĂŁe pelo menos a Terra.