Dia
e outro, e outro, e outro, e mais outro. Ah máquinas infernais, parem esse matraquear de dias sem fim.
Parem esse morrer e nascer incessante de coisas velhas.
e outro, e outro, e outro, e mais outro. Ah máquinas infernais, parem esse matraquear de dias sem fim.
Parem esse morrer e nascer incessante de coisas velhas.
Importam-se de inventar passas sem grainhas?
Porque é que as unhas das mãos crescem mais depressa do que as dos pés?
nos intervalos do amor não há nada
só o bolor
como pode o bolor queimar tanto como queima?

mas mesmo nas cinzas resta fogo
mesmo no fogo restas tu
confesso que me canso
canso-me dos almoços e da falta de almoços
canso-me dos risos e da falta de riso
canso-me dos silêncios e da falta de silêncio
canso-me
até de me cansar

um ramo noutro ramo
e a voz baixinho junto ao peito
uma fatia de tecido
outra fatia de tecido. mais fina.
e finalmente a pele.
Há alturas em que devia ser obrigatório responder: Vai-te foder!
Qualquer outra coisa é estar com paninhos quentes e calar o que não faz sentido ser calado.
É como ouvir a melhor música do mundo, daquelas que nos fazem ouvir sininhos, e dizer "é gira" a encolher os ombros.
Devia haver uma lei que obrigasse a fazer-se justiça a todos os sacanas e sacanices que acontecem por aí. Quando alguém merece mesmo ser mandado à merda, há que o mandar à merda. É normal. É do mais elementar bom senso.

dá-me as tuas
só aí me reconheço
nelas não há tempo. nelas posso partir.
de sair à rua e não haver rua. Depois caminhava ao longo de rua nenhuma e os passos fugiam
abandonam-me ali
e porque haveria de haver ruas ou sítios onde há ruas?
porque há-de haver rugas e cachecóis e cabelo? O trabalho de pensar isso tudo.
Rectas. É o que há. Longas rectas que não pensam.